segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Figuraça do Carvão: Luiz "Raul" Pereira

Talvez aqui esteja a maior "figuraça" desse brevet. O cara veio a caráter para a prova, pilotando uma Peugeot maravilhosa, paralamas requintados, alforges laterais, camiseta de algum clube de remo de Florianópolis, com tecido "dry" da década de 70, "suplex" branco sexy, e o shape do "Raulzito". De um humor inconfundível e inabalável, não importava o momento em que o atacássemos durante a prova, a resposta era sempre a mesma e de igual entonação: "-Uhhuuulllllll!!!". Ao final, deixou um lindo depoimento no site "Caminhos do Sertão", que deliberadamente segue:




"Levando a alma pra passear: 300 km com morrebas no Audax Carvão



O relato que se segue apresenta o resultado perceptível do que foi pedalar os 300 km que justificaram o treino teste realizado na semana passada, que nesse momento parece tão distante quanto agora são as dores sofridas durante as duas experiências. A difícil tarefa do corpo de levar a alma pra passear, proporciona-nos sensações prazerosas, que só são sentidas no momento vivido, virando boas lembranças imediatamente ao término da empreitada, e uma sedução para seguir em busca do outro limite de desafio, que são os 400 km.
Na condição de cicloerrante, com a conhecida aptidão física e tática, montado num equipamento bastante rudimentar, não me propunha a percorrer o trecho acompanhando meu amigo e estimulador Della, que chegou entre os quatro primeiros, mas dentro do limite de tempo que é destinado aos que querem enfrentar o desafio, na modalidade e faixa etária do cicloturismo. Enquanto o ilustre completou a prova em doze horas, eu o fiz em dezoito, no mesmo padrão do Audax 200. Daquela vez, pelas condições do terreno, a minha média foi um pouco maior.
Para quem ainda não conhece, o Audax tem como proposta o desafio de vencer as distâncias num tempo determinado, sem a exigência do rigor da prova. No caso do Audax 300 do Carvão, a organização elevou ao máximo o limite. Dos trezentos quilômetros, duzentos eram de estradas com lombas e serrotas, que exigiram um esforço adicional às canelas e juntas, uma paciência a mais no momento da experiência. Isso só aumentou o prazer de curtir.
Saímos de Criciuma às 23 horas, percorrendo os primeiros quilômetros com um carro batedor, num bloco bem concentrado, numa velocidade bem excitante. Duas motos policiais acompanhavam o cortejo, interrompendo o trânsito dos automóveis à nossa passagem. Depois disso, quando saímos do ambiente urbano, cada um seguiu no seu ritmo, vencendo as montanhotas e subidinhas, até o primeiro Posto de Controle, na cidade de São Ludgero, a uma distância de uns oitenta quilômetro. Neste trecho, vi algumas pessoas ficando para trás, por pneus furado e problemas mecânicos. Lentamente eu ia encostando em alguns pequenos grupos, que iam ficando para trás, por abandonarem o pelotão de frente, que era composto por atletas e jovens, como o meu amigo Della, que só não chegou antes dos primeiros quatro, porque parou algumas vezes para repousar sentado no Celite, graças ao jantar no rodízio de pizza, onde Ele, o Evando e o Marcelo, companheiros de jornada, deliciaram-se nos vários sabores da gloriosa massa. Os outros dois, tiveram a brincadeira interrompida, pela mesma perturbação gástrica.
A chegada em Tubarão, às cinco e meia da matina, coroava a etapa noturna, trazendo a luz do Sol, para melhorar a visibilidade da paisagem e da estrada. Voltamos à cidade de São Ludgero, onde fomos recebidos com uma deliciosa canja de galinha caipira, que além da carne tem as vísceras (coração, fígado) e óvulos, retirados dos ovários de galinhas poedeiras. As bolotas parecem batatinha, e a gente enche o prato, só percebendo a diferença ao provar. É uma turbina proteica, excelente para proporcionar energia para vencer a etapa mais extenuante.
Subimos a Serra do Rio do Rastro, a uma altitude de 760 metros, num trecho de cinquenta quilômetros praticamente só de subida. Esta brincadeira começou no início da manhã, durando até meio dia, quando cheguei ao topo do sacrifício. Quando me disseram que faltava apenas uns seis quilômetros, minha alma já tinha saído do corpo, e a sombra zombava da minha cara. Parei umas cinco vezes, pra me entupir de gel sei lá pra quê, barrinha de isotônico, banana seca, castanha de caju, uvas passas… até água eu tomei, neste momento de quase desistir. Doeu até a última prega, quando olhava para o horizonte, e fui ultrapassado por uma das três meninas participantes, e ouvi o ‘vamo tio….’. Na última tentação sentida pelo corpo, de pensar em não chegar, fui alcançado pelo Pedrão, um curitibano de 71 anos, que xingava a mãe de todos os organizadores, e algumas ancestrais mais pregressas. Ao final, tudo se transformou em alegria, animando o trecho final, que não poderia ser pior do que isso.
Os últimos cem quilômetros são sempre marcados pela perda do ânimo físico, mas o aumento do moral. As dores vão aparecendo, a carne vai ardendo, mas a alegria de ver o trecho diminuindo serve como um elixir, que ajuda a lubrificar as juntas. Ao mesmo tempo, o peso do alforge vai diminuindo, pois o estoque de comida vira suor, que vai ficando pelo caminho. Foi graças ao poder de transformação da canja com ovo cozido em metano, que a potência do pedalar cresceu. Cada pum exalado equivalia a uma pedalada. E não foram poucos, durante toda a manhã. O trecho da última tarde foi um pouco mais plano, mas com muitas lombas bastante extensas até a sua totalidade. Para finalizar a brincadeira, o trânsito urbano, a falta de orientação para chegar ao objetivo, e a companhia de apenas dois novos companheiros de empreitada, com quem me juntei nos últimos quilômetros, fizeram o complemento das emoções, que só a endorfina pode proporcionar.
Daqui de Florianópolis fomos juntos seis ciclodementes. Além do Della e do Evandro, o Jorge, nosso ilustre representante internacional, que sofreu pela derrota da sua seleção pela turma do Dunga, mas chegou bem antes que eu, e o Ronaldo, com quem pedalei praticamente todo trecho, junto o Gilmar, um ilustre camarada de Balneário Camboriu. Em grupo, conseguimos nos manter mais fortes, seja para melhorar a visibilidade, ou para compartilhar conversas e animações.
Apesar do rigor da prova, só tenho a registrar cumprimentos à organização, pela disponibilidade e animação da equipe, o que sempre contribui para o sucesso da empreitada. Vou me preparar para os 400 km, pra ver onde é meu limite nessa brincadeira. Andar de bicicleta é um prazer que não tem dimensão clara. Tanto nos anima nos passeios de um simples domingo, junto com a esposa, quanto essas aventuras, que nos tiram do sério, propiciando a alegria de conhecer novas pessoas, lugares e experiências. E isso não tem preço.





Huli Huli





Luiz Pereira"


Ver o "Raul", de 51 anos, levar aquela Peugeot que deveria pesar mais de 20Kg, até o PC4, no coração da Serra do Rio do Rastro, não teve preço. Parabéns pelo brevet Raul!! Abraço a todos!!

3 comentários:

Unknown disse...

Se o "nosso" Raul escrever um livro, eu quero tê-lo em minha biblioteca!

Parabéns, é mais um vencedor!

Viramesa disse...

Conheci o Tio Pereira na primeira viagem que fiz com o pessoal da Caminhos do Sertão. Ele não nos recebeu, pois havia uma pessoa atrasada e ele iria acompanhá-la. Quando encontramos ele no meio do caminho, o que ja tava bom, ficoumelhor.OTio é daqueles caras que não temparada,tãosempre em 220, e por mais que conte a mesma história, nao tem como não rir, até porque do meio da fla pra frente,ele começa a rir e dai voce nao entende mais nada...
Numa destas viagens com o pessoal, surgiu a discussão de participar do 200 em Floripa,e daquele grupo8 pessoas participaram.Nofinal somente o Pereira e eu decidimos tentar os 300, que infelizmente pra mim, não chegou nem nos 50 km, devido a maldita "perturbação gástrica" citada em seu relato. O tio Pereira, Raul Seixas ou Felizbino é energia pura, feliz de quem pedala ao seu lado, pois torna cada pedalada mais facil, mesmo depois de 200-300km, a animação é garantida..Desejo-lhe sucesso na empreitada dos 400 e se até eu conseguir fazer os 300 te acompanho meu amigo, senão posso fazer teu apoio nos PCs..No mais é só Hulli hulli e viva Nossa Senhora da Liberdade!!!!!

Cicloabraços a todos

Marcelo Castro
Maringá-PR

Mohr disse...

belos textos. bela redação. o audax300docarvão inspirou muita gente e realmente foi marcante.
gilmar mohr