sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Gaúchos do Carvão

Vieram apenas dois gaúchos para o brevet. No entanto, de primeira linha. Ambos são Super Randonneurs 2009 (200/300/400 e 600 - possuem todos os brevets desse ano) e ambos tentaram a sorte no Farrapos 1000KM de julho passado. Estou falando do Edson Berreta e do Rafael Castro. Seus coletes refletivos possuíam o selo de aprovação e auteticidade da "Faccin Inspeções" (ver foto) e pedalaram todo o brevet juntos, mas só o Berreta tombou. Logo no início do trecho, ainda quando neutralizado, o Rafael teve um rasgo lateral em seu pneu (por sinal, ainda estou com o pneu rasgado), obtendo um "mãozinha" da organização em razão do trecho ser neutralizado. Ao final da prova perguntou se poderia mandar um depoimento, recebendo um sonoro "-Mas é claro tchÊ!". Segue:

"Sábado, 05 de setembro de 2009, 23 horas, o Brasil acabara de fazer o terceiro gol na Argentina e nossas bikes começavam a se movimentar pelas ruas de Criciúma. Queria assitir o jogo, jogaço... Mas, pedalar 300km por caminhos longe do Rio Grande me atraía mais. Havia a expectativa de belas paisagens e a Serra do Rio do Rastro era convidativa para embelezar essa nova aventura "randonneira". Menos de 5km rodando em grupo com os destemidos e aventureiros ciclistas e uma voz grita: olha o vidro! Psssssssss... Meu pneu furou! Furou não, rasgou. Obra de bêbado, garrafa no asfalto, pneu rasgado na banda lateral. Troquei o mais rápido que pude, com o apoio do meu companheiro de pedal e viagem Edson Berreta e uma "mãozinha" na roda do carro de apoio que iluminava nosso trabalho. Seguimos forte atrás do "pelotão", 30km/h! Estrada escura e irregular ... só alcançamos um ciclista lá pelo km 30... Numa subida! E como tinha subida! Já cansado de tentar buscar o grande grupo de ciclistas, diminuimos nosso ritmo e voltamos a normalidade. 25km/h e ritmo leve nas subidas. E como tinha subida! PC 1 chegou, alívio. Rápida regeneração, cafezinho, banana, power gel... E novamente na estrada... Pior, mais subidas. Km 89, outro bêbado querendo mostrar sua masculinidade para outros bêbados, arrancou com violência seu carro tunado a contra-mão na saída de um posto e me fez frear assustado, meu companheiro engavetou na traseira da bike e foi ao chão. Um motorista irresponsável tentando provar sua precária masculinidade quase nos tirou da prova. Bem, até o km 120, todos nós ciclistas passamos por "maus bocados" com pessoinhas pouco inteligentes e muito assustadas representando uma alegria que não convence nem a eles mesmos... Deve ser por isso que nunca estão satisfeitos! Apesar das dificuldades, pedalar estava gostoso. A estrada até Tubarão não era das melhores, mas o desafio ainda não tinha começado, lógico. Retornamos do PC 2 as 6 horas e começamos a curtir a paisagem... A estrada estava calma e o pedal começou a render. PC 3 chegou muito rápido. Parada muito importante. Sopinha supimpa, coca-cola, barra de proteína, power gel, banana e concentração... O randonnée iria começar de verdade, meninos e homens se separaram. Km 160, entramos a direita e começamos a subir, digo, continuamos a subir. E como tinha subida! E a serra ainda não chegara... E dá-lhe subida, descida, subida, subida, subida... Putz! E a serra?! Não dava pra ver... Neblina e subida não combinam com paisagem bonita. A estrada era boa, os carros respeitavam, as motos roncavam e a bike pesava... Subida, subida... Apareceu uma enorme, nem tanto, mas inclinada... muito inclinada. Minha visão estava escurecendo, falei pro Edson: "tô quebrando". Nem babava, pois não tinha saliva. Ultrapassamos o que chamamos de "rampa lança-míssil" e entramos na Serra. O que?! Só agora chegamos na Serra?! Subida, subida, subida... A paisagem começa a ficar ainda mais bonita. Olhei para o lado... Vertigem. Melhor olhar para o asfalto. E subimos, subimos, surgiu o primeiro mirante. Parada pra recarregar as baterias. Visual deslumbrante. Outros valentes ciclistas chegaram, outros já estavam por ali. E novamente subimos e subimos... Outra parada... Já estava quase no meu limite. Conversamos com um simpático ciclista argentino. Simpático argentino?! Pois é, não dá pra acreditar. Eles existem! Brincadeiras a parte, somos todos iguais é claro. A única diferença é que somos pentacampeões!! Subimos mais um pouquinho e avistamos o PC4. Já estava no meu limite. Minhas pernas quase já não respondiam... Pedalando numa speed com relação 39/52 e pinhas 12 a 26 me desgastei demais. Últimos metros, últimos 400 metros... Quase parei. "Vamo guerreiro... Falta pouco", diz o Edson pedalando numa speed com coroa tripla e usando relação 30/26... Speed randonneira tem que ter relação leve: 34/50 e pinha 12/27, tô convencido disso. Chegamos finalmente no PC da Serra do Rio do Rastro, 201 km percorridos. Minhas pernas bambas, fracas e meu corpo todo contraído. Alívio, felicidade e satisfação. Tinha certeza que estava participando do meu mais difícil brevet de 300km. Talvez até mais difícil que o brevet 400km de Santa Cruz do Sul (SCS - Canguçu - SCS 2009) em que concluí em 21 horas. O PC da Serra foi uma curtição. Comprei lembrancinhas, curti o povo, a paisagem e retornamos aliviados e seguros. Concluímos bem o brevet... Depois do km 250 tudo ficou muito tranquilo, escapamos de um cachorro rottweiler mal intencionado que esperava pelos ciclistas na porteira de casa, furei novamente o pneu no "anel viário" já no km 282 e pedalamos nossos últimos quilômetros relembrando nossa façanha... Subidas intermináveis, noite, carros, bêbados, queda, estrada ruim, subidas, subidas, serra... "rampa lança-míssel", cachorro, pneu furado, pneu rasgado... Chegada, alegria e felicidade. Meus agradecimentos a todos os voluntários e a rapaziada amiga do Maico. Gente boa, bacana, simples e amiga... Ao Maico, companheiro de randonnée aqui no Rio Grande, Super Randonnée 2009 e Farrapo esfarrapado como nós, deixo um grande e sincero obrigado e parabéns pelo ótimo trabalho no Audax do Carvão. Não é fácil organizar uma prova como essa, vocês merecem nossa admiração.
A todos os randonneurs que concluíram o brevet meus parabéns, pois não foi fácil, acho até que é o mais difícil do Brasil.
Abraços ciclísticos,
Rafael Pereira de Castro
Super Randonneur 2009"
Randonnée é dor, sofrimento, superação, disciplina, persistência, pragmatismo, competência, obstinação e, sobretudo, amizade. Costumo dizer que o "sofrimento é democrático". Na longa distância, todo mundo apanha, não importa o condicionamento ou o porte físico. Conheci o Berreta no 300KM da Serra, de Caxias do Sul/RS em maio deste ano. Depois, o Rafael no 400KM de Santa Cruz do Sul/RS. Identificação imediata. Pudera, somos todos da mesma tribo, somos todos randonneurs.
Abraço a todos!

Fortes amizades no Randonnée do Carvão

Vamos falar dos dois “pescadores” de Balneário Camboriú. O José Roberto do Carmo e o Henrique Wendhausen da Silva. Logo no início da prova, já estavam ocupando, despreocupadamente, a rabeta do pelotão. No briefing o Wendhausen já disse para o que tinha vindo: “Vou fechar a prova! A última colocação já tem dono!”. Quando o Zé Roberto sobrava, o Wendhausen dava uma voltadinha só pra seguir na rabeta com ele. E assim foi, até a Igreja de São Gervásio e Protásio, no Rio Maior, em Urussanga (foto), quando aconteceu a primeira desistência do 300 do Carvão. Ao final daquele ciclo de subidas o Zé Roberto dava adeus ao brevet prometendo vingança/revanche no ano que vem. Gostei do espírito. O Zé Roberto, popular Zé Bigode (agora sem, claro), dispensa apresentações, na foto de abertura deste blog é ele com sua “bike tunada”. Já, quanto ao Wendhausen, que no transcurso do brevet ganhou o apelido de “Linguarudinho”, posto duas belas fotos de sua performance por nossas estradas, além de um depoimento enviado a organização:


"Bom dia!

Grandes do AUDAX DO CARVÃO!!!!!!

É com muito prazer e satisfação que escrevo estas palavras em agradecimento a atenção dispensada por Vocês aos Audaxiosos do 300 km, que pelo meu cronômetro foram 313 km. Lá no meio do caminho depois de subir meio mundo os pensamentos já estão meio desgastados imaginando o que se tem pela frente. Mas toda força retirada do nosso corpo pelas cabeças já meio debilitadas vão se dobrando ao passarem pelos PCs. O ser humano é muito aguerrido, adora uma disputa. Eu, pessoalmente, participo dos Audax por que não é uma competição, e está ligado diretamente ao cicloturismo, a um passeio com belas paisagens como foi este que Vocês organizaram brilhantemente. Muitos devem se perguntar lá no meio do caminho o que estou fazendo aqui, subindo, descendo, subindo, descendo e assim vai. Mas o verdadeiro espírito do Audax está nas pessoas, aquelas que dão moral, princípio e organização ao evento, a princípio não os que participam por que estes vão pelo prazer e lazer. A organização não é só botar as coisas nos devidos lugares é se fazer presente como ser humano e isto Vocês o fizeram com muito louvor.
Pedalei 300 km por uma passagem deslumbrante que espero repetir o ano que vem, as dificuldades que encontramos foram totalmente superadas pela total atenção dispensada por Vocês a cada PC pelo caminho até o ultimo instante, por isto Eu digo cobrem o dobro faço questão de pagar mas não deixem de organizar os próximo 300 km pelo mesmo trajeto. Quem participou deste vai treinar mais, os novatos vão ser colocados a prova, parabéns de novo, Vocês merecem. Despeço-me aguardando notícias para breve.

Um abraço

Henrique da Silva Wendhausen"

Ao final, o Linguarudinho mostrou que é homem de palavra. Após 19h22m de pedal, concluía o brevet junto do veterano Pedro Burba e da guerreira Greiciely Lopes, ambos de Curitiba/PR, e quem o esperava na linha de chegada, emocionado, era seu parceiro de pedal, Zé Bigode. Randonnée é isso: um mix de dor e emoção que sempre rende um caldo temperado. Agora, após filosofar bonito, vou almoçar. Abraço a todos!!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Vale tudo para brevetar

Após o belo depoimento do Eduardo Diniz, Machado, Souza...etc, etc, etc, nos comentários do post anterior. Não poderia deixar de falar das gambiarras que encontrei em nosso randonnée. A primeira, sem dúvida, é a do Rohling, randonneur rio-fortunense, que pelalou 250km e fez outros quase 60km "a galope". Chegou a retirar as sapatas de freio traseiras para que a adaptação ficasse perfeita, faltou apenas trocar o selim por uma bela sela... A foto ao lado, batida no PC5, não me deixa mentir. A bela Kona do Fábio provou ser uma excelente eguinha pocotó ("pocotó, pocotó, pocotó...", o Fábio ficou no refrão dessa música por 60km). A outra gambiarra foi o surgimento de uma híbrida em Lauro Müller. Acredito que era o "Hernades" lá de Laguna. Seu pneu deve ter rasgado e ele descolou um 2.5 para a dianteira. Pelo menos rodou os últimos 70km da prova com segurança, 1.0 na traseira e 2.5 na dianteira, a bike sair de frente então, nem pensar! Pena que dessa híbrida não tenho foto.



Abraço a todos!!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

BIKE 100 LIMITES no Carvão




Três blumenauenses vieram se desafiar por nossas bandas. O Huskes, o Urban e o Ribeiro. Brevetaram no bom tempo de 17h18m. Fizeram a prova juntos, exceto quando o Urban ensandeceu e encarnou o Pelizzotti no Rio do Rastro, fazendo muitas vítimas ao longo da tortuosa subida, num ritmo alucinado até o PC 4 (aquele do sósia do “Salum” da TVBV). Acredito que tenham gostado de sofrer por aqui e os espero em outros desafios. Quem curte sofrer sempre será bem vindo em nossos randonnées. No final de tudo, gravaram um vídeo bem produzido e com uma trilha sonora “do peru”! Confiram: www.vimeo.com/6496229.




Abraço a todos!!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

No clima do Audax/Randonnée

Primeiro causo: Neste brevet o briefing não teve qualquer pompa (gosto da coisa dessa forma), foi feito em um ginásio pequeno, nos fundos do "ginásio mãe" da Unesc. Bikes, inscritos, familiares, organização, voluntários e curiosos, todos num só lugar. A energia era muito positiva. João Hipólito Garcez, popular João Pedalada, que já correu Audax no Rio Grande do Sul alguns anos atrás, sempre estabelecendo tempos expressivos, chegou ao briefing para interagir com os participantes e na hora foi acometido pela coceirinha. Resultado: acabou largando com os cinquenta e cinco furiosos. Soube que sua família acompanhou de perto a prova, tendo seu filho ficado muito orgulhoso do pai, que extraoficialmente brevetou o 300 do Carvão em 12h17m de prova (fez questão de pedir aos voluntários que registrassem seu tempo nos PCs e assinava embaixo). Randonnée (nada além do que passeio, em Francês) é isso, o estilo livre em sua acepção pura, a democracia do sofrimento.
Segundo causo: O inscrito Ubirajara, popular Bira, não largou, pois tinha convicção de que não completaria. No entanto, como reside em Orleans, aproveitou quando os randonneurs passavam por sua cidade com destino ao PC5 e foi no embalo, após sentir já conhecida coceirinha. Suou a camisa, brincou, interagiu, perturbou, falou, e como falou, curtiu a prova do seu jeito, é um randonneur. Fez questão de pedir aos voluntários que registrassem seu tempo no PC5 e na Chegada, só para entrar no clima...
No randonnée, o importante é chegar em casa com a convicção de que você deu o seu melhor, cada um a sua maneira.
Abraço a todos!!

Voluntários do Carvão



Foi-nos dito pelos inscritos que um dos grandes diferenciais desta prova foram os voluntários. Acredito que o engajamento deles no evento deu-se em razão de todos, atualmente, serem cicloturistas. Durante o briefing, relataram da coceirinha que lhes acometia, queriam pegar uma bike e seguir junto dos cinquenta e cinco corajosos. É a identificação. Quando a tribo está reunida é preciso estar junto. É muito fácil simpatizar com seus iguais. Turma de Urussanga: Maico, cicloturista audaxioso, amador convicto, pois não tem mais idade para ser World Champion de nada; Maurício “Promessa” Viel (estava sempre comigo no Clio branco), 14 anos, promessa urussanguense no ciclismo, está sempre em todas! (aquelas que seus pais deixam...); Fernando “Toxiro” (aquele do cabelo pintado de branco...), figuraça dos PCs 2 e 5, apaixonado pela bicicleta e suas vertentes; Elvis “Carvalho” (o mais cabeludo, que dirigia a Saveiro prata com Metálica no último volume), também dos PCs 2 e 5, estudante de Educação Física, louco por esportes e ocupando a bicicleta um lugar especial em seu coração. Turma de Criciúma: rapazes do PC 4, o temido, Moacir e Everton, ex-ciclistas profissionais, funcionários da loja Bike Point de Criciúma, vivem a bicicleta desde a adolescência; nos PCs1 e 3, Evandro “Bosa”, mecânico número 1 da Bike Point de Criciúma, vive, respira e se suja com óleos e graxas das bicicletas, costuma dar nó em pingo d’água, quadros tortos, aros de alumínio zincado, câmbios indolentes, etc, etc, etc.; por fim, também nos PCs 1, 3, além da premiação na Chegada, Augusto “Maninho” Canabarro “Patrãozinho” de “Business” Freitas, é a personificação da bicicleta na região sul de Santa Catarina, para desespero de sua família, sempre tem um passeio bem organizado agendado (www.bikepointadventure.com.br), coloca até o mais “vadio” pra pedalar, e para os clientes: sempre tem uma Scott na promoção! Lembrando que as mulheres do Bosa e do Maninho também ajudaram nos PCs 1 e 3, lembram de duas “bicudas” por lá?! (vou apanhar por causa disso...)



Abraço a todos!!

Hospitalizados do Carvão

Duas quedas marcaram o brevet. Na primeira, o Fabiano Biatheski, popular Binho, de Criciúma, perdeu o controle de sua bicicleta na descida a São Ludgero, próximo ao PC1, e machucou sua face. Foi atendido no hospital de Orleans e levado para casa pelo Augusto. Foi-me relatado que no retorno para casa o espírito audax ainda imbuía o Binho, que se sentia orgulhoso com seu desempenho, pois havia treinado e se dedicado com afinco nas últimas semanas e com a quantidade de ciclistas que tinha deixado para trás. Tudo o que sei desta queda foi-me relatado por terceiros. Portanto, caso o Binho, que é seguidor deste blog, sinta-se tentado a fazer algum comentário ou consideração a respeito, que não se acanhe. A segunda queda, deu-se na saída do PC4. Luan Roldão Ramos, ciclista de Morro da Fumaça, o mais jovem dos inscritos, perdeu o controle de sua bicicleta e achou um “guard-rail” na Serra do Rio do Rastro. No hospital de Lauro Müller, após dez pontos no peito e dois no braço, respirava aliviado ao saber que o raio-x revelara não ter quebrado nada. No máximo a bicicleta. Mais uma vez, caso o Luan queira manifestar-se através de e-mail ou comentário, pode meter ficha.

Faço votos que a violência das quedas relatadas não esmoreça a vontade do Binho e do Luan. Não é para ter medo, pois quem tem medo deixa de viver; mas também não é para ser louco; pois os loucos morrem cedo; o gostoso é desejar os desafios a que nos propomos e resignar-se ante o inevitável. O que não tem remédio, remediado está. Espero vê-los na série 2010!

Abraço a todos!!